Balanço do Ano - O arbusto



  Na florista diziam que era um dos arbustos mais bonitos, então me escolheram para este jardim. Chegar a esta terra diferente do horto onde nasci, infiltrar as minhas raizes por entre algumas pedras; resistir a minocas e outros bichos... foi difícil.

Quando pareceu que me habituei o frio e o vento não me permitiam florecer, até dizimavam as minhas folhinhas... Por muito esforço que fizesse para produzir uma folha.... Rapidamente a folha cedia ao clima... Sentia-me despida e inútil com estes pauzinhos erguidos ao céu... Só as recordações do horto me aqueciam o coração... nos dias tristes...

No outro dia, chegaram duas crianças e no meio das corridas e brincadeiras viu-os aproximarem-se com os cachecois e gorros na mão. A neve cobria os meus ramos e à medida que se aproximavam a curiosidade inundava-me. Até que penduraram os objetos num dos meus ramos. Senti medo de me quebrar... Mas realmente a roupa deles era bem leve. Passado um pouco aproximaram-se com os pesados casacos e o pânico inundou-me... Não aguento tanto peso, sou só um pequeno arbusto.... Mas senti-me bem, senti-me útil.

Curiosamente, os casacos pareceram leves... Entretanto percebi que as minhas raízes estavam mais fundas, até os meus ramos estavam mais fortes. Continuando neste exame minucioso descobri uns pequenos rebentos. O longo período de inverno serviu para crescer, para me fortalecer, afinal estive sempre no sítio certo. 

Nos balanços de fim de ano, muitas vezes, procuramos medir objetivos, números... Mas na realidade o maior crescimento, as coisas mais importantes são, segundo o Principezinho[1], "invisíveis aos olhos".

Bom ano de 2024



[1] O principezinho, Saint Exupéry  


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